segunda-feira, 22 de junho de 2026

a dobra do origami


vi então suas asas 

nascendo sobre seus braços

tomando suas mãos

enquanto outras criaturas

de papel voavam

esses seres alados 

se reuniam

sobre seus glúteos

sobre sua vulva

erguiam-se em dobras

enfim eram saias que ocultavam

um corpo marcado

um coração desfeito

dois pés dilacerados

a musa rubra descansa sobre os mesmos olhos

que passivamente fere e cega

não entende os males que prolifera e paira

quase meiga e só

sobre a terra devastada.



https://suno.com/s/T0ENpQlDvleJ2s3R

domingo, 21 de junho de 2026

éter / mater / fêmea

 quando redescobrirem meu valor fêmeo

quando voltarem-se para o sentido mater
hei de entenderem a postura do mundo
como quem desnuda o natural, o signo Magno
da VIDA

sou mulher-terra que nasceu para doar-se
sua colheita vem de meus rasgos
de meu calor silencioso
inteira e plena doou-me
até esgotar-me

eis meu sentido de renovação
da terra à terra e amanheço a cada dia
como a esperança de quem sabe de onde tirar

enquanto quiser meu peito
mesmo que cansada e faminta
ainda darei de mamar

enquanto quiser meu corpo
mesmo que cansada e desesperada
ainda hei de amar.

verdades sitiadas


poderia contar de uma terra

devastada pelo medo e pela intolerância

das pedras que viram-se quietas por gerações

e que agora são arrastadas pela correnteza

isso não explicaria a violência da tempestade

da madrugada passada

e não resta nada além da prateleira

dos velhos retratos sobre a cômoda

e meus fantasmas a me observar

não devo enganar a mim mesma

dizendo que as portas tem trancas

e que a construção antiga

aguentará a ternura da solidão

e as orações em desapego

mas ainda olho os bibelôs

balançando suas cabeças

e os jingles de propaganda velha

onde o poeta pergunta incansável:

“o que faz você feliz?”

poderia romancear e responder reticente

que talvez o cantor da música que não fiz

ou que algum vagabundo que chamo pelo nome

me endurecem o pau que não tenho

ou um qualquer pudesse me fazer feliz

mas a lucidez torturadora me fez dispensar

meus filhos, meu nome e minha honra

e se nem minha casa me serve mais

o que há demais em confessar em silêncio

que não há felicidade aqui?


https://suno.com/song/de6d0724-ec9e-46e9-8362-bb2a5dd47347

quinta-feira, 18 de junho de 2026

flor irreversível

 o que me tomba são esses olhos

essa passagem turva
que a miopia
teima em ofuscar

nem chegue muito perto, moço
que cá em minha matuteza
só sei do seco e da aspereza
da lamúria de fundo de poço


quem dera assim
cansada da labuta
esperasse livre, que não a luta
e nem causasse tanto desgosto


sou eu mesma,
essa flor irreversível
esse ser indivisível que teima
em preservar-se ileso

quem dera fosse solta de nós
e desprendida de egoísmos
seria calmo meu lirismo
e essa gota de devoção

pare estrangeiro
não te dei o direito
de invadir meu peito
e devassar minha canção

mas que venha sóbrio
de dom e de coração
e que nesse verso
pratique a imensidão.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Van Gogh

há quem queira justificar a falha
com o homem
há quem dite as cartas
ao telefone
há quem exija amar
sem fome
e há quem veja girassóis
sem saber o nome
de Van Gogh


https://suno.com/song/b192e443-ed77-4dd2-9e24-37eb9d589bf3

segunda-feira, 15 de junho de 2026

vapor



o ar denso, morno, incansável
flutua sobre a criatura
dança dúbia a fumaça realidade
baila com o horizonte, sol e chuva


as crenças se desfazem poeira
os mitos bailam arco-íris
todos os sentimentos velhos
beijam o rio e se misturam no vento


as gotas cálidas voam quase vapor
ora bruma ora nuvem
na aceitação completa não há dor
ou sofrimento


num instante breve onde nada é palpável
uma única pergunta perdura
partimos do pressuposto da verdade
ou nos acalentaria mais a dúvida?




https://suno.com/song/5d25c9c7-141b-4617-8bac-1049323d50ae

asas quebradas



somos todos ilhas
cercados de solidão
por todos os lados
sem futuro 
e sem passado

somos anjos caídos
com nossas asas quebradas
somos caminhantes 
dessa longa estrada
dessa longa estada

deixe ir
deixe ir
o que não for para amar
quero ficar
quero ficar
onde for para amar

esperando o que há de vir
esquecendo o que vivemos aqui
sem esperanças do que somos
sem lembrar do que fomos




substantivo abstrato

 é quase primavera

e dela não há nada aqui
sangra desse outono
ainda seco que dilacera
que encerra um ciclo
de sofrimento e quer inexistir

feito palavras vazias
e retórica falha
a terra insiste no despeito
que brota inerte, folha velha
que pelo vento se deixa levar

e o cheiro da podridão toma as narinas
não é exemplar animal ou vegetal
não é jangada, nem flor de macieira
nem tão pouco sol alto
ou derrame de lobeira

mal se sabe se é.

domingo, 14 de junho de 2026

antes que desçam

 para cortar-me

furar-me o fundo
lamacento
e exigirem mais de mim
aviso que não quero
ser explícito
mesmo sendo água
transparente escondo-me
gosto de guardar-me
na escuridão silenciosa
de meu poço
perdido da cronologia
das horas e fodas
tenho meus segredos
mesmo que me sirvam
como chá.

sábado, 13 de junho de 2026

atrás de teus olhos



às vezes tudo desaparece
eu não vejo nem meu rosto
diante do espelho
não me reconheço
e estou invisível
toco meu rosto 
já não sinto
vejo outras faces
e penso se 
se sentem assim também

era bom enquanto doía
era bom enquanto doía
mas agora não sinto mais
sem esperança de ter paz

atrás de teus olhos
você me vê?
você não é invisível
para mim
eu te reconheço
e vejo a dor em teu olhar
toco teu rosto
e te sinto
vejo tua face
e me pergunto
você se sente assim?

era bom enquanto doía
era bom enquanto doía
mas agora não sinto mais
sem esperança de ter paz



sexta-feira, 12 de junho de 2026

a febre

 


“There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
When she gets there she knows if the stores are all closed
With a word she can get what she came for” - Led Zeppelin

a febre continua
enforquei todas as Alices em mim
ao som de Alice in Chains
não há País das Maravilhas
enquanto ardo

matei-me várias vezes hoje
pensando em minhas mãos lavadas
nas cadeiras que desocupei
nos silêncios que reverenciei
basta!

cansei-me de ser casta
e conjugar os verbos
no antônimo de minhas vontades

mudei de estação
Led Zeppelin me faz esquecer
que estou morta
suspensa nos cadafalsos
que construí.


ensaio azul

 

não posso fazer chorar
pois não me restabeleço
na dor que causo
mas permita que eu sinta
esse amor

posso confundir o negro
com o escuro azul
esqueci de amar
nunca soube
e por vezes minto
esse amor

posso deitar em seu colo
como em qualquer outro
e jurar ser feliz
e ser real
mas tudo é azul

finais felizes não são feitos
pra gente como nós
mas hoje, por hoje posso pedir
faça me tão sua
que esqueça outras coisas
e me sinta inteira

só por hoje


https://suno.com/song/d6757544-44ca-484f-b003-5ac7ac8912d1

quarta-feira, 10 de junho de 2026

fogo perpétuo

 rogo aos céus que me perdoe pelo mal que causei

que me faça puro novamente ou como nunca fui
absolva meu cansaço e descrença com os homens
e me intitule senhora de mim de hoje até sempre

rogo à terra que me proteja de minhas escolhas
que me acolha no meu último discurso
tendo em vista que pouco me acolhi

rogo aos homens que me iludam cada vez mais
porque sou descrente de todos eles e de teus ardis
e enfim, sendo enganada esteja completa
e enfim me sinta feliz


flor de tempestade



suas palavras rasgam
as certezas que trago aqui
retumbam nas vísceras
desagregam meu sentido mais ego


essa lira fragmenta danos
nego meu querer mesmo que
as premissas teimem
em redundar no âmago


suas sementes crescem
feito praga esgueiram-se
nas frestas desavisadas
enraízam-se causando dor


desses desejos mui tardios
que sussurram, calado ouço
mas impune à minha súplica
continua a brotar em mim


é como flor de tempestade
desabrocha gentil
impera bela
sem se ater ao que me causa.



a seita dos fracos


para as lágrimas não existe
humores  ou temperamentos
jamais diga: “não temereis”
eu temo,  sou fraca
só se entende da dor
se permite a dor
e mesmo que não permita
que sinta, sente

não tente

o privilégio é saber-se
apaixonada e abandonada
amar é para fanáticos
e é tão lindo ser fraco


horas inteiras

o movimento dos ponteiros de segundos
perduram entre os sorrisos falsos
sobre o piano calado
todos datam a eternidade

quem dera a velocidade dos carros
desse o compasso do tempo
preso nas celas por cordas
de minha goela seca

não há amor na revolução
há apenas retratos mudos
desbotados pela distância
e por lembranças deturpadas

quem dera essas balas do tambor
de meu revolver fossem palavras
e estourassem o vazio do tic-tac


que trago em minha cabeça

escarlate

 enquanto todos os sonhos

se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.
 

terça-feira, 9 de junho de 2026

penumbra



a noite é escura pouco
pelo tamanho da minha estranheza
e eu tenho medo
tenho muito medo
e não me pergunto nada
quando estou insone
porque meus demônios me respondem
cada vez mais alto
em vozes repetidas
não quero esperar o dia
não quero dormir
pra não ter que acordar

os santos e anjos
estão quebrados no chão
fui eu que brinquei, que num sopro
e fui eu quem os joguei
e fui eu quem os quebrei

a noite está escura demais
para o tamanho do meu medo
deixa te contar um segredo
minha fé é que é pouca
sou tão louca
estou tão louca
que nem me lembro de rezar
pros anjinhos quebrados
da minha mãe

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Catherine, uma carta para Kate Bush




os muros pichados 
gritam em silêncio
que não creio
a vida está mais
no passado que no presente
que futuro é esse que vivo?
vivo?

enquanto a vida joga comigo e 
quando perde e ganha
e ganha e perde
pois é assim que é 
por vezes somos tão iguais
"mulher se comporte, mulher se comporte"
e não tenho orgulho do que me recordo
melhor esquecer  

não que algo tenha mudado tanto
se isso existe de certo modo
temo em dizer que já tentei
fazer pactos e falhei
fiz propostas tão estranhas
que foram ignoradas

sim, minha amiga, queria amigos assim
sim, talvez eu quisesse amigos
estamos em outros tempos
não tenho voz e não sei gritar
eu sabia dançar 
que passado torpe tive
perdi meu tempo

os deuses não querem nada de nós
não existem fogueiras suficientes
não há fogueiras eficientes
eu sou tão boa em ser ruim
nem tanto assim...
eu não sou tão boa nem pra mim
só queria trocar de lugar contigo

os deuses são placebos
e a crença ledo engano
atenho-me ao mundano
ateia-me o ser inteiro
incluindo as veias

quinta-feira, 21 de maio de 2026

púrpura pálido



das ausências quase quentes
que imperam ainda
sob as pontas dos dedos
onde habitam as saudades
tardiamente latentes

as razões não se explicam
por crença talvez nem existam
mas são um misto de carinho
e vertigem de deixar-se ficar
um pouco, um pouquinho mais

à noite atravessava o deserto insano 
e deitava-se sobre as dunas mornas
não havia mais vida ali
só o eco do pulsar antigo
o silêncio convidava apenas 
à falta, à lembrança 

o púrpura pálido relembrava 
a rara luz da pele dela 
um rosto reluzente sob o luar
o breve sorriso da musa morta
já não mais



terça-feira, 12 de maio de 2026

1958

 ouço minha própria voz, cacofônica, num gravador velho, o trabalho mecânico da máquina em contato com a fita preta, aquilo que hoje quase inexiste. e a voz distorcida me fala meus poemas que ainda não escrevi, ainda. o terapeuta disse que é normal ter pensamentos confusos, repetitivos, responsivos, intrusivos que dialogam entre si e me fazem confusa, esquecida, fora de eixo. faço planos para o ano de mil novecentos e cinquenta e oito, seria? um gravador novo, saindo de uma caixa, como um presente de aniversário daquele, ou desse ano, num subúrbio, na pobreza que nem eu mesma suporto e saio nômade pelo mundo. mas não sei dizer onde, que lugar do planeta. a colaboração do tempo comigo não é grande, e ultimamente ando tropeçando pelas madrugadas, arrastando meus chinelos e ouvindo os mortos. mais tarde isso acontece novamente e já não pertenço a lugar nenhum. a via crucis de meu movimento num apartamento pequeno e um trilheiro de pensamentos tão longos que já nem sei, talvez devesse usar a tática de deixar migalhas, palavras ou pistas de quem sou pelo caminho, para que depois eu volte a me redescobrir, de novo e de novo ou talvez nem me perca... Sartre me contou desde muito cedo que por dentro a coisa se fermenta e se descortina de maneira pessoal e interior, particular e única. parece confessional, e nesse momento não tenho história, passado e futuro, tenho só o degringolar de um ser alienado e indisposto, e a vida do avesso. nunca vivi um livro meu e quando eu não estiver mais nem eu serei de mim mesma. vivemos em terceira pessoa do plural, habitando a primeira a primeira pessoa do singular, muito singular. estamos em plena terceira guerra mundial e ninguém admite. eu não sei quantas pessoas me conhecem, minha imagem está perdida no cosmos e minhas palavras estão ainda sendo traduzidas por toda terra, porque será que esses bigodes babados ainda beijam minhas mãos e esses olhos vesgos ainda me miram com fome?

sábado, 9 de maio de 2026

ponto, parágrafo



num movimento tão cotidiano
as contas se descortinam novamente
ai, os rosários diários
em segundos, minutos e hora

aqueles dedos grossos
de tanto trabalhar na lida
aquelas mãos calejadas
da dureza do mundo
rezavam o terço 
de mil contas
pediam pão
pediam calma
mas o tempo dos senhores
não para
nem por honra
nem por dor
o tempo requisita
o tempo rouba

sei hoje, que a terra não é 
de quem labuta
a terra não é de quem luta
e não segui meus pais
não segui meu país
não segui meus mortos
não segui

aquelas unhas com terra
abriram meus caminhos
desbravaram muito
mas minha herança não é
o pó sob as unhas
é meu caminhar
nômade e sem paragens

anarquia

 que os sonhos sejam minha proteção de mim mesma, que eu não alivie nas sensações de amar e que toda  a ilusão de contentamento me engane profundamente... que meus olhos nunca se cansem de olhar para o horizonte, ainda que eu durma às vezes e amanheça esquecida do que fiz na noite anterior. que todas as mentiras de amor me alcancem e que eu acredite nelas o tempo que for necessário para eu me refazer da ilusão anterior. que os meus cabelos fiquem cada vez mais grisalhos e que tenham a oportunidade de se tornarem totalmente brancos, sem prazo de validade. que esse sorriso que transborda continue em meu rosto e que se for necessário que ele me abandone, que seja por pouco tempo. que eu tenha sempre em mente que meu coração é um bálsamo de cansaço, cercado de utopia por todos os lados...



(eu já não sei se isso vem de mim ou se vem das águas de Portugal, a palavra aqui traz um lirismo com uma força descomunal, as coisas têm esse ritmo, e brotam num fluxo próprio e simples. parece uma teia bem engendrada de lembranças que nem sei se são minhas ou não. sou tomada por uma sinestesia única e vale dizer que as ruas de pedras, em Lisboa, cantam sozinhas, e de madrugada enquanto todos dormem eu escuto seus fados de saudade em versos rimados.)

domingo, 3 de maio de 2026

vermelho pálido



as entranhas não mais existiam
tudo era um misto de ocre fétido
negro abissal
e um suave tom de vermelho pálido

as canções de outrora
silenciaram em luto
e as palavras cansadas 
desistiram ao meio do léxico

as declarações e aversões
declinaram torpes
após o último gole
e das sombras ficou
o reflexo

tudo foi vão 
a rara luz dos olhos jaz
e aquele sorriso, nunca mais...



sábado, 2 de maio de 2026

esquecido



escrevi muitos poemas
a maioria deles ninguém leu
nesses tempos alcançar o outro
saiu de moda

estão todos presos às tuas portas
castrados em teus silêncios
fantasiados de si e extasiados de nada

embora meus olhos mareados
queiram ser vistos, lidos, e decifrados
estão todos selados 
seja com selos fechados
ou com selas arreados

os adornos e contornos
são mais para diferenciar
a casta, a rinha, as bobagens sem valor

escrevi várias sentenças
e julguei demais quem não merecia
escrevi várias cartas
que os correios não entregam mais

e ainda que entregasse
quem as leria?

sábado, 25 de abril de 2026

signo



em que ainda
tentando me explicar
me perco
e tentando me encontrar
me perco

barco a remo
sem rumo
a ermo
corrente do rio
corrente

ainda que queira
nada posso
contra o fluxo
o rio
a vida

e sigo signo
em meio ao não
significar
resignificar

sou um som
um sinal de terra
na imensidão do amazonas
um estouro de boiada
sou a estuprada e rasgada
tentando reabitar

sou o corpo animado
a ferro e fogo
que não partiu de si
por teimar.


meu além mar



equidistantes nós somos

todo ser é meu
além mar
minha palavra
meu verbo
quer lhe alcançar

a palavra é nau

todo outro é meu
além mar
meu estrangeiro
sem par
que vaga no silêncio
de mim

a minha palavra é nau
e voa em nós
até onde possa lhe 
encontrar

meu além mar
é quem me lê
e talvez
me entenda

sexta-feira, 10 de abril de 2026

desistências



hei de ignorar os estivadores
presos entre meus olhos 
e o entardecer alaranjado
às voltas do rio Tejo

hei de ignorar as praças
vazias nas manhãs simples
de domingo e feriados
o cheiro de café das casas
distantes dos conventos,
castelos e celas abandonadas
nas cidades fantasmas

hei de ignorar até os bandolins
que tocam pelas madrugadas
mesmo que só haja um cliente no bar
ignorarei veemente 
as bailarinas bêbadas
e os poetas mortos
ou aqueles de bronze
sentados nos bancos de bar
e de praia
que se deixam tocar e abusar

até me dar conta
sem poder me perdoar
que não posso esquecer
os vagabundos iluminados
com suas palavras de esfinge
e sémen que engravidam sempre
meus ouvidos extasiados

vou ignorar todas as coisas
que me fazem lembrar
que eu fui desenhada
para amar
 

medo





quero acercar meu grito
e desenhá-lo em meus muros
onde meu lamento jaz
onde meu infortúnio secrete
num lugar onde
ninguém mais
possa me visitar

a vigília das noites
é velada na escuridão
do abismo da solidão
nada alcança o deserto
onde se encontra
cada um de nós

a palavra tenta atingir
essa redoma que nos isola
uns dos outros 
mas o léxico particular
trás de volta
a incompreensão

os passos no escuro
cercam apenas o invisível
da igualdade tão plena
que nos abarca a todos
as jaulas de interpretação

o mundo só nos atinge
pela compreensão
tão própria
tão peculiar

essa mesma palavra dança
encanta e arrebata
essa mesma palavra
ilude em infâmia

sábado, 4 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

o meu amante





ah, o meu amor errante
traz os olhos vencidos
aqueles mesmos olhos
que de tão curiosos
já não sabem para onde olhar

é aquele menininho
de olhos vesgos
que cavava buracos no chão
para esconder seus tesouros
é aquele que nenhuma menina
ousou amar enquanto criança

é aquele rapaz 
que dormia na casa
que ficava de frente para a praça
que passava a noite
observando o coreto vazio insone
esperando o dia amanhecer

é aquele homem
que abriu buracos em si
para esconder suas fraquezas
o seu medo do afeto
e que amou tanto a outra
que se esqueceu
de esquecer

sexta-feira, 20 de março de 2026

passagem



eu dedico essa passagem
a quem não quer
perder a viagem
de viver perto de mim
o itinerário parece simples
pão e café cedo
ou quando eu não quiser mais
dormir
os dias não serão curtos nem longos
e terão o tempo certo
para respirar e aprender

apreender

e dia após dia
que sejamos livres
que me corrija e não inflija
eu tentarei o mesmo
garanto, não será suave
afinal a nossa nave
é terrestre e ainda não decolou

quero amar no caminho
com respeito e virtudes
e que nossas atitudes
digam a nós
quem são

a passagem é de graça
mas não é grátis
pois tudo tem um preço
que é pago com o tempo
e com o coração


sábado, 7 de março de 2026

repúdio



você que lê de tudo
e não sabe de nada
você que vem de longe
lá dos recôncavos brutais
da ignorância profunda 
não me dita sua regra
malfadada

eu quem entrei muda
e saí calada
eu quem apanhei na cara
e sem licença fui violada
por glutões e cínicos
eu quem não tenho amor
eu que nem tenho refúgio
repilo

agora, escolho essa é a estrada
dessa vez vou e não volto
eu prefiro a solidão
sem dúvida 
só quero
estar só e viva
não mal acompanhada

pouca poesia



os meus cacos estão espalhados
por todas as partes
a maior parte de meus amigos
está morta
e eu não alimento mais
esperanças vãs

tudo que amei
me levou um pedaço
de minha carne
e sanidade

sóbrio e sem reservas
a realidade come-me as unhas
carcome as roupas
mata-me de frio

vendo versos parcos
ah, o vil metal
em uma terra estranha

quanto vale um caco meu?
quando ainda poderei ter
tendo tão pouca poesia?


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

a dicotomia



sou eu em outra pele
olhando com mesmos olhos
um eu abastado e transbordado
de mim que já não sou


aves e césares declinados
em todos os tempos verbais
sem se repetirem
e ao mesmo sendo eu
ainda


esse teu corpo que não o meu
ferve e me olha com desejo
inspira-me, inspiro-me
vista em reflexo do outro


és-me sem
ser-me
sou-te sem
ser-te.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

entre mundos



porque não pertenço a mundo nenhum
e nada me resta se não chorar de saudades
de um mundo que não é meu
e está sempre pior
corro, corro

para o outro lado que não está
nada que é meu
mas quando tiver eu saio
como saio, à francesa

entre dois mundo 
o passado e o futuro
é aqui onde estou
uma vida de agora

antes que acabe

saudades



seca, é o adjetivo encrustado
mesmo tão longe do
planalto central
e entre os blocos guiados
a correr sem freios e não chore
de saudades imensas
imensas minhas,
não faça como as chuvas
na europa, sim aqui na europa
eu, eu, risos, europa, pah pah

na europa só chove, só e apenas
chove...

e que me rompa as roupas
molhadas
seca, e brasília é seca
enquanto todos lá esperam 
ansiosos
não chore, não chore
mas na minha terra antiga
não é como aqui
onde tudo se derrama
lenta e friamente
no meu planalto
não chove, não chove não

sábado, 14 de fevereiro de 2026

de mães, dos mares aos bares de Alfama



abre-me seus os braços
para os filhos e não filhos
antigos e recém chegados
os obedientes e degredados
abre-me os braços, Portugal

aqui, onde tantos se embriagam e naufragam
são e somos os tardios os filhos
dos mares e dos bares
de Alfama, do fado
e de Lisboa

que o trago, a dose também acolhe
a bebida é mãe de muitos
e abarca uma legião
há quem vá e volte por ela
ou por um par de pernas
ou pela terra que deixou 
por pão

um brinde ao porre, à alegria...

a língua e ascendência não importam
estão todos à porta 
à espera de um ou vários abraços quentes
numa dose ou numa garrafa
numa mão morna e aveludada

não importa quem 
se fala verdade ou mente
há sempre uma cadeira
um colo
uma canção



como a balada antiga



agora que deito no travesseiro
e olho pra mim no espelho
nada aqui me faz pertencer
você dormindo seu sono tranquilo
enquanto me atormento
por feitio, pura rotina

a existência dentro de imperfeições
e eu nessa rota de colisão
eu, uma balada do Radiohead
torta e decomposta
cantada com voz suave

sei quem sou e como estou
e não há nada de especial aqui
e não tento disfarçar a inconformidade
não tenho mais mais palavras

não há como descrever-me além
daquela velha canção
onde cada um é tão especial
em que o outro é tão lindo
que de tão lindo parece um anjo
tão especial que quase me faz chorar

desafinada, fora do tom, fora do ritmo
grito em desespero, o quanto sou feia
o quanto me sinto inadequada
não que eu seja infeliz por ser tão desprezível

é tanta beleza nesse mundo
que até machuca
é tanta beleza nesse tudo
para se perder tempo 
com o que não presta

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

silencioso



olho para o céu e não tenho orações
só o observar da caduquice da vida
me consola 
a lentidão das coisas
ou minha ao observar 
acalma-me os nervos
e silencia tudo mais

as bardanas continuam a crescer 
pelas soleiras das portas
e a velha penteadeira inerte
reflete meu olho absurdo

há que diga que estou bem
que sou linda e que não envelheci
meu olho esquerdo desmente 
e obtusa o que falte com a verdade

refletida e refletindo ainda
observo me pelo ângulo mais reto possível
e dançam todas as outras imagens periféricas
quase tudo é neutro hoje em dia

as pontas dos dedos estão alaranjadas
a perspectiva da lógica já não é óbvia
e os sussurros gritam por vezes
unhas encravadas que latejam noite e dia

sorrio quando não estou só
isso esconde ou disfarça
a tristeza que só eu sei que carrego
mas o segredo não pesa

o baile do tempo
os cabelos e o vento sorriem
entre o caos e a desonra
e nuno me acolhe do jeito dele

palavra



persigo-a
como se ela fosse uma borboleta
o pasto cheio de relva e merda
as vacas pastam
as galinhas cacarejam
o sol nasce e se põe
inúmeras vezes

e persigo-a
como quem persegue a beleza
e tudo é transitório
eu sou transitória
como a borboleta, o pasto, a relva
a merda, as vacas, as galinhas
e os dias

ela foge de mim
como quem voa livre
traspassa o sentido
o vocábulo, o som, o signo
e o tempo

amante gótica



uma única visão atravessa meu dia
a sombra de suas asas refletidas
no asfalto negro como meus pensamentos
oh, gárgula maldita
é minha companhia perfeita
nesses dias que me sinto tão desvelada

talvez no seu sepulcro olhar
eu me desvaneça e tenha
apenas você como companheira
repousada em meu mais profundo eu
sobre a minha lápide final

sinto-me morta e prisioneira
dos meus sentimentos confusos
tão ferinos e obtusos
será entre suas asas 
que enfim, encontrarei acalanto?


fita-me com esse olhar melancólico
gárgula maldita,
segue-me por onde quer que eu vá
pendurada e vazia
no canto frio desse edifício

persegue-me silenciosa e inquisidora
fervilha minha alma inquieta
que não foge mais da dor
e me vê por dentro
enquanto ninguém mais

ah, criatura mitológica
parta-me em pedaços
alivia meu sofrimento
porque faz tempo que não sei
o que é viver em paz

rogo pela a morte
porque não tive muito em vida 
e derrote-me mesmo 
me sentindo vencedora
do pouco que é, não mais estar






sábado, 7 de fevereiro de 2026

pássaro preto



o pássaro do outro lado do mundo
vem cantar sua canção  sombria
e me hipnotiza amável
é amor o que ele canta
é amor, certeza é amor

e canta lúgubre e se volta a atravessar
seus desertos e abrir suas caixas
e me fascina singelo
é temor o que ele deixa
é terror, certeza é terror

quando volta, chega negro
cheio de carvão e ferro
e me tatua suave e flui
é desespero o que ele transborda
é desespero

pássaro preto me consola
seu canto, seu deserto e desespero
me rasgam e penetram fundo
e tudo que sou agora é tu
pássaro preto, preto.


ainda é cedo



não me roube os livros 
nem os brios
não me roube os risos
e fique um pouco mais

ah, sim, farto-me em dizer
são todos iguais, tais e quais
e me conforma desacreditar
e saber que definitivamente 
não são

tão parecidos brutos e enraivecidos
são todos amigos e eu não

ah, meu amor, seja diferente
de toda essa gente
que muito me mente
que diz querer e não quer
que bem diz maldizendo
que só ama fodendo
com a sanidade dos pacíficos

enquanto tudo brilha nos recôncavos
agora inertes
não retiro uma vírgula
e nenhum nó

acolho meus domingos contigo
tão felizes que não tivemos
e os velos se deixam 
apaziguar em choro
estamos aqui

ah, meu querido, vire os olhos pra lá
e não seja assim, tão definitivo
o que corta na minha pele
é a navalha do perigo
dos códigos que desconheço

ah, meu amor, me surpreenda
e baila comigo a canção
do bandido
e leve-me junto
com meu coração

contrato



fiz um acordo amigável comigo
não quero nenhum castigo
por arrependimento

do que está feito está feito
o que foi dito foi dito
e o escrito subscrevo-me

eu atrevo-me e hei de me atrever
enquanto me precaver de mim não ouso
não fujo do certo

e eu quero fugir do que não é meu
o que é meu fica
não foge e não se justifica 
depois do erro

e nesse contrato onde
ganham e perdem todos
as palavras se aninham como ouro
no fundo do rio
no fundo do pote

no último suspiro

e assim é

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

limiares

 



entre as esfinges diurnas:
o sol
das manhãs que se confundem
iguais e vêm a pio
no desvario 
sem pensar, no passo dado
e suplicando, e arrastando, 
e lastimando, o dia-a-dia...

o enfado de quem tem tudo

entre as esfinges noturnas:
a lua
das noites mal dormidas
quase iguais e vêm tardia
na desvalia
sem gozar, no silêncio
na escuridão, solitária
e machucada, noite-pós-noite...

a descrença de quem não tem nada

entre as esfinges cotidianas
o amor
dos opostos que se entregam
tão únicos e vêm descompassados
no imenso vazio dos imensos
duas margens que se querem
e se repelem conexos e em laços
se dilaceram e se curam, até que...

os contornos ficarem nítidos