ouço minha própria voz, cacofônica, num gravador velho, o trabalho mecânico da máquina em contato com a fita preta, aquilo que hoje quase inexiste. e a voz distorcida me fala meus poemas que ainda não escrevi, ainda. o terapeuta disse que é normal ter pensamentos confusos, repetitivos, responsivos, intrusivos que dialogam entre si e me fazem confusa, esquecida, fora de eixo. faço planos para o ano de mil novecentos e cinquenta e oito, seria? um gravador novo, saindo de uma caixa, como um presente de aniversário daquele, ou desse ano, num subúrbio, na pobreza que nem eu mesma suporto e saio nômade pelo mundo. mas não sei dizer onde, que lugar do planeta. a colaboração do tempo comigo não é grande, e ultimamente ando tropeçando pelas madrugadas, arrastando meus chinelos e ouvindo os mortos. mais tarde isso acontece novamente e já não pertenço a lugar nenhum. a via crucis de meu movimento num apartamento pequeno e um trilheiro de pensamentos tão longos que já nem sei, talvez devesse usar a tática de deixar migalhas, palavras ou pistas de quem sou pelo caminho, para que depois eu volte a me redescobrir, de novo e de novo ou talvez nem me perca... Sartre me contou desde muito cedo que por dentro a coisa se fermenta e se descortina de maneira pessoal e interior, particular e única. parece confessional, e nesse momento não tenho história, passado e futuro, tenho só o degringolar de um ser alienado e indisposto, e a vida do avesso. nunca vivi um livro meu e quando eu não estiver mais nem eu serei de mim mesma. vivemos em terceira pessoa do plural, habitando a primeira a primeira pessoa do singular, muito singular. estamos em plena terceira guerra mundial e ninguém admite. eu não sei quantas pessoas me conhecem, minha imagem está perdida no cosmos e minhas palavras estão ainda sendo traduzidas por toda terra, porque será que esses bigodes babados ainda beijam minhas mãos e esses olhos vesgos ainda me miram com fome?
terça-feira, 12 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
ponto, parágrafo
num movimento tão cotidiano
as contas se descortinam novamente
anarquia
que os sonhos sejam minha proteção de mim mesma, que eu não alivie nas sensações de amar e que toda a ilusão de contentamento me engane profundamente... que meus olhos nunca se cansem de olhar para o horizonte, ainda que eu durma às vezes e amanheça esquecida do que fiz na noite anterior. que todas as mentiras de amor me alcancem e que eu acredite nelas o tempo que for necessário para eu me refazer da ilusão anterior. que os meus cabelos fiquem cada vez mais grisalhos e que tenham a oportunidade de se tornarem totalmente brancos, sem prazo de validade. que esse sorriso que transborda continue em meu rosto e que se for necessário que ele me abandone, que seja por pouco tempo. que eu tenha sempre em mente que meu coração é um bálsamo de cansaço, cercado de utopia por todos os lados...
(eu já não sei se isso vem de mim ou se vem das águas de Portugal, a palavra aqui traz um lirismo com uma força descomunal, as coisas têm esse ritmo, e brotam num fluxo próprio e simples. parece uma teia bem engendrada de lembranças que nem sei se são minhas ou não. sou tomada por uma sinestesia única e vale dizer que as ruas de pedras, em Lisboa, cantam sozinhas, e de madrugada enquanto todos dormem eu escuto seus fados de saudade em versos rimados.)
domingo, 3 de maio de 2026
vermelho pálido
as entranhas não mais existiam
tudo era um misto de ocre fétido
sábado, 2 de maio de 2026
esquecido
escrevi muitos poemas
a maioria deles ninguém leu
sábado, 25 de abril de 2026
signo
em que ainda
tentando me explicar
me perco
meu além mar
equidistantes nós somos
sexta-feira, 10 de abril de 2026
desistências
que me fazem lembrar
medo
é velada na escuridão
não chore, menino lindo
o mundo é uma bola
e as pessoas querem
sábado, 4 de abril de 2026
sexta-feira, 3 de abril de 2026
o meu amante
de olhos vesgos
sexta-feira, 20 de março de 2026
passagem
eu dedico essa passagem
a quem não quer
perder a viagem
de viver perto de mim
o itinerário parece simples
pão e café cedo
ou quando eu não quiser mais
dormir
os dias não serão curtos nem longos
e terão o tempo certo
para respirar e aprender
e dia após dia
eu tentarei o mesmo
garanto, não será suave
afinal a nossa nave
é terrestre e ainda não decolou
sábado, 7 de março de 2026
repúdio
você que lê de tudo
e não sabe de nada
você que vem de longe
lá dos recôncavos brutais
não me dita sua regra
malfadada
pouca poesia
os meus cacos estão espalhados
por todas as partes
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
a dicotomia
sou eu em outra pele
olhando com mesmos olhos
um eu abastado e transbordado
de mim que já não sou
aves e césares declinados
em todos os tempos verbais
sem se repetirem
e ao mesmo sendo eu
ainda
esse teu corpo que não o meu
ferve e me olha com desejo
inspira-me, inspiro-me
vista em reflexo do outro
és-me sem
ser-me
sábado, 21 de fevereiro de 2026
entre mundos
porque não pertenço a mundo nenhum
e nada me resta se não chorar de saudades
de um mundo que não é meu
e está sempre pior
corro, corro
para o outro lado que não está
saudades
seca, é o adjetivo encrustado
mesmo tão longe do
planalto central
sábado, 14 de fevereiro de 2026
de mães, dos mares aos bares de Alfama
abre-me seus os braços
são e somos os tardios os filhos
como a balada antiga
agora que deito no travesseiro
você dormindo seu sono tranquilo
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
silencioso
olho para o céu e não tenho orações
só o observar da caduquice da vida
palavra
persigo-a
como se ela fosse uma borboleta
amante gótica
gárgula maldita,
sábado, 7 de fevereiro de 2026
pássaro preto
o pássaro do outro lado do mundo
vem cantar sua canção sombria
ainda é cedo
são todos iguais, tais e quais
e me conforma desacreditar
e saber que definitivamente
contrato
fiz um acordo amigável comigo
não quero nenhum castigo
por arrependimento
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
limiares
o sol