quinta-feira, 21 de maio de 2026

púrpura pálido



das ausências quase quentes
que imperam ainda
sob as pontas dos dedos
onde habitam as saudades
tardiamente latentes

as razões não se explicam
por crença talvez nem existam
mas são um misto de carinho
e vertigem de deixar-se ficar
um pouco, um pouquinho mais

à noite atravessava o deserto insano 
e deitava-se sobre as dunas mornas
não havia mais vida ali
só o eco do pulsar antigo
o silêncio convidava apenas 
à falta, à lembrança 

o púrpura pálido relembrava 
a rara luz da pele dela 
um rosto reluzente sob o luar
o breve sorriso da musa morta
já não mais



terça-feira, 12 de maio de 2026

1958

 ouço minha própria voz, cacofônica, num gravador velho, o trabalho mecânico da máquina em contato com a fita preta, aquilo que hoje quase inexiste. e a voz distorcida me fala meus poemas que ainda não escrevi, ainda. o terapeuta disse que é normal ter pensamentos confusos, repetitivos, responsivos, intrusivos que dialogam entre si e me fazem confusa, esquecida, fora de eixo. faço planos para o ano de mil novecentos e cinquenta e oito, seria? um gravador novo, saindo de uma caixa, como um presente de aniversário daquele, ou desse ano, num subúrbio, na pobreza que nem eu mesma suporto e saio nômade pelo mundo. mas não sei dizer onde, que lugar do planeta. a colaboração do tempo comigo não é grande, e ultimamente ando tropeçando pelas madrugadas, arrastando meus chinelos e ouvindo os mortos. mais tarde isso acontece novamente e já não pertenço a lugar nenhum. a via crucis de meu movimento num apartamento pequeno e um trilheiro de pensamentos tão longos que já nem sei, talvez devesse usar a tática de deixar migalhas, palavras ou pistas de quem sou pelo caminho, para que depois eu volte a me redescobrir, de novo e de novo ou talvez nem me perca... Sartre me contou desde muito cedo que por dentro a coisa se fermenta e se descortina de maneira pessoal e interior, particular e única. parece confessional, e nesse momento não tenho história, passado e futuro, tenho só o degringolar de um ser alienado e indisposto, e a vida do avesso. nunca vivi um livro meu e quando eu não estiver mais nem eu serei de mim mesma. vivemos em terceira pessoa do plural, habitando a primeira a primeira pessoa do singular, muito singular. estamos em plena terceira guerra mundial e ninguém admite. eu não sei quantas pessoas me conhecem, minha imagem está perdida no cosmos e minhas palavras estão ainda sendo traduzidas por toda terra, porque será que esses bigodes babados ainda beijam minhas mãos e esses olhos vesgos ainda me miram com fome?

sábado, 9 de maio de 2026

ponto, parágrafo



num movimento tão cotidiano
as contas se descortinam novamente
ai, os rosários diários
em segundos, minutos e hora

aqueles dedos grossos
de tanto trabalhar na lida
aquelas mãos calejadas
da dureza do mundo
rezavam o terço 
de mil contas
pediam pão
pediam calma
mas o tempo dos senhores
não para
nem por honra
nem por dor
o tempo requisita
o tempo rouba

sei hoje, que a terra não é 
de quem labuta
a terra não é de quem luta
e não segui meus pais
não segui meu país
não segui meus mortos
não segui

aquelas unhas com terra
abriram meus caminhos
desbravaram muito
mas minha herança não é
o pó sob as unhas
é meu caminhar
nômade e sem paragens

anarquia

 que os sonhos sejam minha proteção de mim mesma, que eu não alivie nas sensações de amar e que toda  a ilusão de contentamento me engane profundamente... que meus olhos nunca se cansem de olhar para o horizonte, ainda que eu durma às vezes e amanheça esquecida do que fiz na noite anterior. que todas as mentiras de amor me alcancem e que eu acredite nelas o tempo que for necessário para eu me refazer da ilusão anterior. que os meus cabelos fiquem cada vez mais grisalhos e que tenham a oportunidade de se tornarem totalmente brancos, sem prazo de validade. que esse sorriso que transborda continue em meu rosto e que se for necessário que ele me abandone, que seja por pouco tempo. que eu tenha sempre em mente que meu coração é um bálsamo de cansaço, cercado de utopia por todos os lados...



(eu já não sei se isso vem de mim ou se vem das águas de Portugal, a palavra aqui traz um lirismo com uma força descomunal, as coisas têm esse ritmo, e brotam num fluxo próprio e simples. parece uma teia bem engendrada de lembranças que nem sei se são minhas ou não. sou tomada por uma sinestesia única e vale dizer que as ruas de pedras, em Lisboa, cantam sozinhas, e de madrugada enquanto todos dormem eu escuto seus fados de saudade em versos rimados.)

domingo, 3 de maio de 2026

vermelho pálido



as entranhas não mais existiam
tudo era um misto de ocre fétido
negro abissal
e um suave tom de vermelho pálido

as canções de outrora
silenciaram em luto
e as palavras cansadas 
desistiram ao meio do léxico

as declarações e aversões
declinaram torpes
após o último gole
e das sombras ficou
o reflexo

tudo foi vão 
a rara luz dos olhos jaz
e aquele sorriso, nunca mais...



sábado, 2 de maio de 2026

esquecido



escrevi muitos poemas
a maioria deles ninguém leu
nesses tempos alcançar o outro
saiu de moda

estão todos presos às tuas portas
castrados em teus silêncios
fantasiados de si e extasiados de nada

embora meus olhos mareados
queiram ser vistos, lidos, e decifrados
estão todos selados 
seja com selos fechados
ou com selas arreados

os adornos e contornos
são mais para diferenciar
a casta, a rinha, as bobagens sem valor

escrevi várias sentenças
e julguei demais quem não merecia
escrevi várias cartas
que os correios não entregam mais

e ainda que entregasse
quem as leria?