ouço minha própria voz, cacofônica, num gravador velho, o trabalho mecânico da máquina em contato com a fita preta, aquilo que hoje quase inexiste. e a voz distorcida me fala meus poemas que ainda não escrevi, ainda. o terapeuta disse que é normal ter pensamentos confusos, repetitivos, responsivos, intrusivos que dialogam entre si e me fazem confusa, esquecida, fora de eixo. faço planos para o ano de mil novecentos e cinquenta e oito, seria? um gravador novo, saindo de uma caixa, como um presente de aniversário daquele, ou desse ano, num subúrbio, na pobreza que nem eu mesma suporto e saio nômade pelo mundo. mas não sei dizer onde, que lugar do planeta. a colaboração do tempo comigo não é grande, e ultimamente ando tropeçando pelas madrugadas, arrastando meus chinelos e ouvindo os mortos. mais tarde isso acontece novamente e já não pertenço a lugar nenhum. a via crucis de meu movimento num apartamento pequeno e um trilheiro de pensamentos tão longos que já nem sei, talvez devesse usar a tática de deixar migalhas, palavras ou pistas de quem sou pelo caminho, para que depois eu volte a me redescobrir, de novo e de novo ou talvez nem me perca... Sartre me contou desde muito cedo que por dentro a coisa se fermenta e se descortina de maneira pessoal e interior, particular e única. parece confessional, e nesse momento não tenho história, passado e futuro, tenho só o degringolar de um ser alienado e indisposto, e a vida do avesso. nunca vivi um livro meu e quando eu não estiver mais nem eu serei de mim mesma. vivemos em terceira pessoa do plural, habitando a primeira a primeira pessoa do singular, muito singular. estamos em plena terceira guerra mundial e ninguém admite. eu não sei quantas pessoas me conhecem, minha imagem está perdida no cosmos e minhas palavras estão ainda sendo traduzidas por toda terra, porque será que esses bigodes babados ainda beijam minhas mãos e esses olhos vesgos ainda me miram com fome?
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