terça-feira, 12 de maio de 2026

1958

 ouço minha própria voz, cacofônica, num gravador velho, o trabalho mecânico da máquina em contato com a fita preta, aquilo que hoje quase inexiste. e a voz distorcida me fala meus poemas que ainda não escrevi ainda. o terapeuta disse que é normal ter pensamentos confusos e responsivos, intrusivos que dialogam entre si e me fazem confusa em mim mesma. faço planos para o ano de mil novecentos e cinquenta e oito, um subúrbio, a pobreza que nem eu mesma suporto e saio nômade pelo mundo. mas não sei dizer onde , que lugar do planeta. a colaboração do tempo comigo não é grande, e ultimamente ando tropeçando pelas madrugadas, arrastando meus chinelos e ouvindo os mortos. mais tarde isso acontece novamente e já não pertenço a lugar nenhum. a via crucis de meu movimento num apartamento pequeno e um trilheiro de pensamentos tão longos que já nem sei, talvez devesse usar a tática de deixar migalhas, palavras ou pistas de quem sou pelo caminho, para que depois eu volte a me redescobrir, de novo e de novo ou talvez nem me perca... Sartre me contou desde muito cedo que por dentro a coisa se fermenta e se descortina de maneira pessoal e interior de maneira bem particular e única. parece confessional, e nesse momento não tenho história, passado e futuro, tenho só o degringolar de um ser alienado e indisposto, e a vida do avesso. nunca vivi um livro meu e quando eu não estiver mais nem eu serei de mim mesma. vivemos a terceira guerra mundial e ninguém admite. eu não sei quantas pessoas me conhecem, minha imagem está perdida no cosmos e minhas palavras estão ainda sendo traduzidas por toda terra, poque será que esses bigodes babados ainda beijam minhas mãos e esses olhos vesgos ainda me miram com fome?

sábado, 9 de maio de 2026

ponto, parágrafo



num movimento tão cotidiano
as contas se descortinam novamente
ai, os rosários diários
em segundos, minutos e hora

aqueles dedos grossos
de tanto trabalhar na lida
aquelas mãos calejadas
da dureza do mundo
rezavam o terço 
de mil contas
pediam pão
pediam calma
mas o tempo dos senhores
não para
nem por honra
nem por dor
o tempo requisita
o tempo rouba

sei hoje, que a terra não é 
de quem labuta
a terra não é de quem luta
e não segui meus pais
não segui meu país
não segui meus mortos
não segui

aquelas unhas com terra
abriram meus caminhos
desbravaram muito
mas minha herança não é
o pó sob as unhas
é meu caminhar
nômade e sem paragens

anarquia

 que os sonhos sejam minha proteção de mim mesma, que eu não alivie nas sensações de amar e que toda  a ilusão de contentamento me engane profundamente... que meus olhos nunca se cansem de olhar para o horizonte, ainda que eu durma às vezes e amanheça esquecida do que fiz na noite anterior. que todas as mentiras de amor me alcancem e que eu acredite nelas o tempo que for necessário para eu me refazer da ilusão anterior. que os meus cabelos fiquem cada vez mais grisalhos e que tenham a oportunidade de se tornarem totalmente brancos, sem prazo de validade. que esse sorriso que transborda continue em meu rosto e que se for necessário que ele me abandone, que seja por pouco tempo. que eu tenha sempre em mente que meu coração é um bálsamo de cansaço, cercado de utopia por todos os lados...



(eu já não sei se isso vem de mim ou se vem das águas de Portugal, a palavra aqui traz um lirismo com uma força descomunal, as coisas têm esse ritmo, e brotam num fluxo próprio e simples. parece uma teia bem engendrada de lembranças que nem sei se são minhas ou não. sou tomada por uma sinestesia única e vale dizer que as ruas de pedras, em Lisboa, cantam sozinhas, e de madrugada enquanto todos dormem eu escuto seus fados de saudade em versos rimados.)

domingo, 3 de maio de 2026

vermelho pálido



as entranhas não mais existiam
tudo era um misto de ocre fétido
negro abissal
e um suave tom de vermelho pálido

as canções de outrora
silenciaram em luto
e as palavras cansadas 
desistiram ao meio do léxico

as declarações e aversões
declinaram torpes
após o último gole
e das sombras ficou
o reflexo

tudo foi vão 
a rara luz dos olhos jaz
e aquele sorriso, nunca mais...

sábado, 2 de maio de 2026

esquecido



escrevi muitos poemas
a maioria deles ninguém leu
nesses tempos alcançar o outro
saiu de moda

estão todos presos às tuas portas
castrados em teus silêncios
fantasiados de si e extasiados de nada

embora meus olhos mareados
queiram ser vistos, lidos, e decifrados
estão todos selados 
seja com selos fechados
ou com selas arreados

os adornos e contornos
são mais para diferenciar
a casta, a rinha, as bobagens sem valor

escrevi várias sentenças
e julguei demais quem não merecia
escrevi várias cartas
que os correios não entregam mais

e ainda que entregasse
quem as leria?

sábado, 25 de abril de 2026

signo



em que ainda
tentando me explicar
me perco
e tentando me encontrar
me perco

barco a remo
sem rumo
a ermo
corrente do rio
corrente

ainda que queira
nada posso
contra o fluxo
o rio
a vida

e sigo signo
em meio ao não
significar
resignificar

sou um som
um sinal de terra
na imensidão do amazonas
um estouro de boiada
sou a estuprada e rasgada
tentando reabitar

sou o corpo animado
a ferro e fogo
que não partiu de si
por teimar.


meu além mar



equidistantes nós somos

todo ser é meu
além mar
minha palavra
meu verbo
quer lhe alcançar

a palavra é nau

todo outro é meu
além mar
meu estrangeiro
sem par
que vaga no silêncio
de mim

a minha palavra é nau
e voa em nós
até onde possa lhe 
encontrar

meu além mar
é quem me lê
e talvez
me entenda