segunda-feira, 22 de junho de 2026

a dobra do origami


vi então suas asas 

nascendo sobre seus braços

tomando suas mãos

enquanto outras criaturas

de papel voavam

esses seres alados 

se reuniam

sobre seus glúteos

sobre sua vulva

erguiam-se em dobras

enfim eram saias que ocultavam

um corpo marcado

um coração desfeito

dois pés dilacerados

a musa rubra descansa sobre os mesmos olhos

que passivamente fere e cega

não entende os males que prolifera e paira

quase meiga e só

sobre a terra devastada.



https://suno.com/s/T0ENpQlDvleJ2s3R

domingo, 21 de junho de 2026

éter / mater / fêmea

 quando redescobrirem meu valor fêmeo

quando voltarem-se para o sentido mater
hei de entenderem a postura do mundo
como quem desnuda o natural, o signo Magno
da VIDA

sou mulher-terra que nasceu para doar-se
sua colheita vem de meus rasgos
de meu calor silencioso
inteira e plena doou-me
até esgotar-me

eis meu sentido de renovação
da terra à terra e amanheço a cada dia
como a esperança de quem sabe de onde tirar

enquanto quiser meu peito
mesmo que cansada e faminta
ainda darei de mamar

enquanto quiser meu corpo
mesmo que cansada e desesperada
ainda hei de amar.

verdades sitiadas


poderia contar de uma terra

devastada pelo medo e pela intolerância

das pedras que viram-se quietas por gerações

e que agora são arrastadas pela correnteza

isso não explicaria a violência da tempestade

da madrugada passada

e não resta nada além da prateleira

dos velhos retratos sobre a cômoda

e meus fantasmas a me observar

não devo enganar a mim mesma

dizendo que as portas tem trancas

e que a construção antiga

aguentará a ternura da solidão

e as orações em desapego

mas ainda olho os bibelôs

balançando suas cabeças

e os jingles de propaganda velha

onde o poeta pergunta incansável:

“o que faz você feliz?”

poderia romancear e responder reticente

que talvez o cantor da música que não fiz

ou que algum vagabundo que chamo pelo nome

me endurecem o pau que não tenho

ou um qualquer pudesse me fazer feliz

mas a lucidez torturadora me fez dispensar

meus filhos, meu nome e minha honra

e se nem minha casa me serve mais

o que há demais em confessar em silêncio

que não há felicidade aqui?


https://suno.com/song/de6d0724-ec9e-46e9-8362-bb2a5dd47347

quinta-feira, 18 de junho de 2026

flor irreversível

 o que me tomba são esses olhos

essa passagem turva
que a miopia
teima em ofuscar

nem chegue muito perto, moço
que cá em minha matuteza
só sei do seco e da aspereza
da lamúria de fundo de poço


quem dera assim
cansada da labuta
esperasse livre, que não a luta
e nem causasse tanto desgosto


sou eu mesma,
essa flor irreversível
esse ser indivisível que teima
em preservar-se ileso

quem dera fosse solta de nós
e desprendida de egoísmos
seria calmo meu lirismo
e essa gota de devoção

pare estrangeiro
não te dei o direito
de invadir meu peito
e devassar minha canção

mas que venha sóbrio
de dom e de coração
e que nesse verso
pratique a imensidão.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Van Gogh

há quem queira justificar a falha
com o homem
há quem dite as cartas
ao telefone
há quem exija amar
sem fome
e há quem veja girassóis
sem saber o nome
de Van Gogh


https://suno.com/song/b192e443-ed77-4dd2-9e24-37eb9d589bf3

segunda-feira, 15 de junho de 2026

vapor



o ar denso, morno, incansável
flutua sobre a criatura
dança dúbia a fumaça realidade
baila com o horizonte, sol e chuva


as crenças se desfazem poeira
os mitos bailam arco-íris
todos os sentimentos velhos
beijam o rio e se misturam no vento


as gotas cálidas voam quase vapor
ora bruma ora nuvem
na aceitação completa não há dor
ou sofrimento


num instante breve onde nada é palpável
uma única pergunta perdura
partimos do pressuposto da verdade
ou nos acalentaria mais a dúvida?




https://suno.com/song/5d25c9c7-141b-4617-8bac-1049323d50ae

asas quebradas



somos todos ilhas
cercados de solidão
por todos os lados
sem futuro 
e sem passado

somos anjos caídos
com nossas asas quebradas
somos caminhantes 
dessa longa estrada
dessa longa estada

deixe ir
deixe ir
o que não for para amar
quero ficar
quero ficar
onde for para amar

esperando o que há de vir
esquecendo o que vivemos aqui
sem esperanças do que somos
sem lembrar do que fomos