sábado, 25 de abril de 2026

signo



em que ainda
tentando me explicar
me perco
e tentando me encontrar
me perco

barco a remo
sem rumo
a ermo
corrente do rio
corrente

ainda que queira
nada posso
contra o fluxo
o rio
a vida

e sigo signo
em meio ao não
significar
resignificar

sou um som
um sinal de terra
na imensidão do amazonas
um estouro de boiada
sou a estuprada e rasgada
tentando reabitar

sou o corpo animado
a ferro e fogo
que não partiu de si
por teimar.


meu além mar



equidistantes nós somos

todo ser é meu
além mar
minha palavra
meu verbo
quer lhe alcançar

a palavra é nau

todo outro é meu
além mar
meu estrangeiro
sem par
que vaga no silêncio
de mim

a minha palavra é nau
e voa em nós
até onde possa lhe 
encontrar

meu além mar
é quem me lê
e talvez
me entenda

sexta-feira, 10 de abril de 2026

desistências



hei de ignorar os estivadores
presos entre meus olhos 
e o entardecer alaranjado
às voltas do rio Tejo

hei de ignorar as praças
vazias nas manhãs simples
de domingo e feriados
o cheiro de café das casas
distantes dos conventos,
castelos e celas abandonadas
nas cidades fantasmas

hei de ignorar até os bandolins
que tocam pelas madrugadas
mesmo que só haja um cliente no bar
ignorarei veemente 
as bailarinas bêbadas
e os poetas mortos
ou aqueles de bronze
sentados nos bancos de bar
e de praia
que se deixam tocar e abusar

até me dar conta
sem poder me perdoar
que não posso esquecer
os vagabundos iluminados
com suas palavras de esfinge
e sémen que engravidam sempre
meus ouvidos extasiados

vou ignorar todas as coisas
que me fazem lembrar
que eu fui desenhada
para amar
 

medo





quero acercar meu grito
e desenhá-lo em meus muros
onde meu lamento jaz
onde meu infortúnio secrete
num lugar onde
ninguém mais
possa me visitar

a vigília das noites
é velada na escuridão
do abismo da solidão
nada alcança o deserto
onde se encontra
cada um de nós

a palavra tenta atingir
essa redoma que nos isola
uns dos outros 
mas o léxico particular
trás de volta
a incompreensão

os passos no escuro
cercam apenas o invisível
da igualdade tão plena
que nos abarca a todos
as jaulas de interpretação

o mundo só nos atinge
pela compreensão
tão própria
tão peculiar

essa mesma palavra dança
encanta e arrebata
essa mesma palavra
ilude em infâmia

não chore, menino lindo



o mundo é uma bola
e as pessoas querem
jogar com você

é um jogo onde
nem sempre podemos
ser o dono da bola
mas a compartilhamos

uns atacam
uns se defendem
alguns são substituídos
outros substituem

uns respeitam regras
uns não respeitam
alguns criam regras novas
outros só são expulsos

uns cometem faltas
derrubam na área mesmo
e assim
veja lá
é penalti

hora ou outra estamos
de frente pro goleiro
hora é gol
hora não

sábado, 4 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

o meu amante





ah, o meu amor errante
traz os olhos vencidos
aqueles mesmos olhos
que de tão curiosos
já não sabem para onde olhar

é aquele menininho
de olhos vesgos
que cavava buracos no chão
para esconder seus tesouros
é aquele que nenhuma menina
ousou amar enquanto criança

é aquele rapaz 
que dormia na casa
que ficava de frente para a praça
que passava a noite
observando o coreto vazio insone
esperando o dia amanhecer

é aquele homem
que abriu buracos em si
para esconder suas fraquezas
o seu medo do afeto
e que amou tanto a outra
que se esqueceu
de esquecer