hei de ignorar os estivadores
presos entre meus olhos
e o entardecer alaranjado
às voltas do rio Tejo
hei de ignorar as praças
vazias nas manhãs simples
de domingo e feriados
o cheiro de café das casas
distantes dos conventos,
castelos e celas abandonadas
nas cidades fantasmas
hei de ignorar até os bandolins
que tocam pelas madrugadas
mesmo que só haja um cliente no bar
ignorarei veemente
as bailarinas bêbadas
e os poetas mortos
ou aqueles de bronze
sentados nos bancos de bar
e de praia
que se deixam tocar e abusar
até me dar conta
sem poder me perdoar
que não posso esquecer
os vagabundos iluminados
com suas palavras de esfinge
e sémen que engravidam sempre
meus ouvidos extasiados
vou ignorar todas as coisas
que me fazem lembrar
que me fazem lembrar
que eu fui desenhada
para amar
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