terça-feira, 16 de junho de 2026

Van Gogh

há quem queira justificar a falha
com o homem
há quem dite as cartas
ao telefone
há quem exija amar
sem fome
e há quem veja girassóis
sem saber o nome
de Van Gogh

segunda-feira, 15 de junho de 2026

vapor



o ar denso, morno, incansável
flutua sobre a criatura
dança dúbia a fumaça realidade
baila com o horizonte, sol e chuva

as crenças se desfazem poeira
os mitos bailam arco-íris
todos os sentimentos velhos
beijam o rio e se misturam no vento

as gotas cálidas voam quase vapor
ora bruma ora nuvem
na aceitação completa não há dor
ou sofrimento

num instante breve onde nada é palpável 
uma única pergunta perdura 
partimos do pressuposto da verdade
ou nos acalentaria mais a dúvida?


asas quebradas



somos todos ilhas
cercados de solidão
por todos os lados
sem futuro 
e sem passado

somos anjos caídos
com nossas asas quebradas
somos caminhantes 
dessa longa estrada
dessa longa estada

deixe ir
deixe ir
o que não for para amar
quero ficar
quero ficar
onde for para amar

esperando o que há de vir
esquecendo o que vivemos aqui
sem esperanças do que somos
sem lembrar do que fomos




substantivo abstrato

 é quase primavera

e dela não há nada aqui
sangra desse outono
ainda seco que dilacera
que encerra um ciclo
de sofrimento e quer inexistir

feito palavras vazias
e retórica falha
a terra insiste no despeito
que brota inerte, folha velha
que pelo vento se deixa levar

e o cheiro da podridão toma as narinas
não é exemplar animal ou vegetal
não é jangada, nem flor de macieira
nem tão pouco sol alto
ou derrame de lobeira

mal se sabe se é.

domingo, 14 de junho de 2026

antes que desçam

 para cortar-me

furar-me o fundo
lamacento
e exigirem mais de mim
aviso que não quero
ser explícito
mesmo sendo água
transparente escondo-me
gosto de guardar-me
na escuridão silenciosa
de meu poço
perdido da cronologia
das horas e fodas
tenho meus segredos
mesmo que me sirvam
como chá.

sábado, 13 de junho de 2026

atrás de teus olhos



às vezes tudo desaparece
eu não vejo nem meu rosto
diante do espelho
não me reconheço
e estou invisível
toco meu rosto 
já não sinto
vejo outras faces
e penso se 
se sentem assim também

era bom enquanto doía
era bom enquanto doía
mas agora não sinto mais
sem esperança de ter paz

atrás de teus olhos
você me vê?
você não é invisível
para mim
eu te reconheço
e vejo a dor em teu olhar
toco teu rosto
e te sinto
vejo tua face
e me pergunto
você se sente assim?

era bom enquanto doía
era bom enquanto doía
mas agora não sinto mais
sem esperança de ter paz



sexta-feira, 12 de junho de 2026

a febre

 


“There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
When she gets there she knows if the stores are all closed
With a word she can get what she came for” - Led Zeppelin

a febre continua
enforquei todas as Alices em mim
ao som de Alice in Chains
não há País das Maravilhas
enquanto ardo

matei-me várias vezes hoje
pensando em minhas mãos lavadas
nas cadeiras que desocupei
nos silêncios que reverenciei
basta!

cansei-me de ser casta
e conjugar os verbos
no antônimo de minhas vontades

mudei de estação
Led Zeppelin me faz esquecer
que estou morta
suspensa nos cadafalsos
que construí.


ensaio azul

 

não posso fazer chorar
pois não me restabeleço
na dor que causo
mas permita que eu sinta
esse amor

posso confundir o negro
com o escuro azul
esqueci de amar
nunca soube
e por vezes minto
esse amor

posso deitar em seu colo
como em qualquer outro
e jurar ser feliz
e ser real
mas tudo é azul

finais felizes não são feitos
pra gente como nós
mas hoje, por hoje posso pedir
faça me tão sua
que esqueça outras coisas
e me sinta inteira

só por hoje


https://suno.com/song/d6757544-44ca-484f-b003-5ac7ac8912d1

quarta-feira, 10 de junho de 2026

fogo perpétuo

 rogo aos céus que me perdoe pelo mal que causei

que me faça puro novamente ou como nunca fui
absolva meu cansaço e descrença com os homens
e me intitule senhora de mim de hoje até sempre

rogo à terra que me proteja de minhas escolhas
que me acolha no meu último discurso
tendo em vista que pouco me acolhi

rogo aos homens que me iludam cada vez mais
porque sou descrente de todos eles e de teus ardis
e enfim, sendo enganada esteja completa
e enfim me sinta feliz


flor de tempestade



suas palavras rasgam
as certezas que trago aqui
retumbam nas vísceras
desagregam meu sentido mais ego


essa lira fragmenta danos
nego meu querer mesmo que
as premissas teimem
em redundar no âmago


suas sementes crescem
feito praga esgueiram-se
nas frestas desavisadas
enraízam-se causando dor


desses desejos mui tardios
que sussurram, calado ouço
mas impune à minha súplica
continua a brotar em mim


é como flor de tempestade
desabrocha gentil
impera bela
sem se ater ao que me causa.



a seita dos fracos


para as lágrimas não existe
humores  ou temperamentos
jamais diga: “não temereis”
eu temo,  sou fraca
só se entende da dor
se permite a dor
e mesmo que não permita
que sinta, sente

não tente

o privilégio é saber-se
apaixonada e abandonada
amar é para fanáticos
e é tão lindo ser fraco


horas inteiras

o movimento dos ponteiros de segundos
perduram entre os sorrisos falsos
sobre o piano calado
todos datam a eternidade

quem dera a velocidade dos carros
desse o compasso do tempo
preso nas celas por cordas
de minha goela seca

não há amor na revolução
há apenas retratos mudos
desbotados pela distância
e por lembranças deturpadas

quem dera essas balas do tambor
de meu revolver fossem palavras
e estourassem o vazio do tic-tac


que trago em minha cabeça

escarlate

 enquanto todos os sonhos

se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.
 

terça-feira, 9 de junho de 2026

penumbra



a noite é escura pouco
pelo tamanho da minha estranheza
e eu tenho medo
tenho muito medo
e não me pergunto nada
quando estou insone
porque meus demônios me respondem
cada vez mais alto
em vozes repetidas
não quero esperar o dia
não quero dormir
pra não ter que acordar

os santos e anjos
estão quebrados no chão
fui eu que brinquei, que num sopro
e fui eu quem os joguei
e fui eu quem os quebrei

a noite está escura demais
para o tamanho do meu medo
deixa te contar um segredo
minha fé é que é pouca
sou tão louca
estou tão louca
que nem me lembro de rezar
pros anjinhos quebrados
da minha mãe

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Catherine, uma carta para Kate Bush




os muros pichados 
gritam em silêncio
que não creio
a vida está mais
no passado que no presente
que futuro é esse que vivo?
vivo?

enquanto a vida joga comigo e 
quando perde e ganha
e ganha e perde
pois é assim que é 
por vezes somos tão iguais
"mulher se comporte, mulher se comporte"
e não tenho orgulho do que me recordo
melhor esquecer  

não que algo tenha mudado tanto
se isso existe de certo modo
temo em dizer que já tentei
fazer pactos e falhei
fiz propostas tão estranhas
que foram ignoradas

sim, minha amiga, queria amigos assim
sim, talvez eu quisesse amigos
estamos em outros tempos
não tenho voz e não sei gritar
eu sabia dançar 
que passado torpe tive
perdi meu tempo

os deuses não querem nada de nós
não existem fogueiras suficientes
não há fogueiras eficientes
eu sou tão boa em ser ruim
nem tanto assim...
eu não sou tão boa nem pra mim
só queria trocar de lugar contigo

os deuses são placebos
e a crença ledo engano
atenho-me ao mundano
ateia-me o ser inteiro
incluindo as veias