sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Narciso e o Tejo



das águas que não se prendem
e suaves evaporam
vão como chegaram
apenas em si
tão densas em si
tão completas em si

água de sarjeta
água de remela
de tramela
de suco
de suor

sou feita dessa matéria
de tudo e cada átomo
que me solta e me faz
de cada senzala
de cada cela
de todas as selas
que tentaram me colocar

o cavalo doido 
que salta as porteiras
que não se deixa domesticar
e quieto no canto
só trama a próxima fuga

quem sou eu?
quem somos nesse mundo
tão pervertido
tão nômade
tão lindo

sou o brilho refletido 
nos olhos dos outros
narcísica
sem perder o contorno
do outro

sou você sendo eu
e me reconheço nesse mar
imenso mar de volver 
apenas o som das ondas
que foram para o fundo
se reviraram mar

e hoje batem se debruçam 
às margens do rio Tejo

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