domingo, 21 de dezembro de 2025

da guerra do tendal



anoto um beijo calmo e anedótico
anoto um verbo dado e caótico
desses que batem nos nervos tesos
dentro das vaidades absurdas
não cala nem um minuto o pulso
nem o fruir dos pensamentos

anoto para que a mente não esqueça
anoto para que a memória não me falhe
e se falhe que eu recorde

anoto a gana da desvantagem momentânea
da troca do venoso e arterial
mesmo que no fim sejam quase a mesma coisa
o pulso que não para e clama
pois a vida é mais com ou sem drama

anoto o meu soldado redentor e algoz
que me quer e não quer feroz
esse tempo bendito maldito
que me arregaça sem dó ou piedade
se olho para trás ele sorri e se olho pra frente
ele chama: vem amor, odiosa, vem
vem que quero-te na minha cama

passarinho



de boca em boca espalhava-se
aos poucos em gotejo
como se nada fosse o amor
em rápidos e fugazes beijos

era só um vadio
pequeno, miudinho
de bico fino, rabo longo
e de cor estranha

passou em imensas
e minúsculas flores,
nem era sanha
tampouco manha
era sua natureza

uns diriam traidor
ele, o passarinho,
se autointitulava:
"Casablanca, o beija-flor"



sábado, 20 de dezembro de 2025

do dia que olhei para Medusa e virei pedra

 

Esse clima de possessões espirituais ateias e selvagens
conduzem uma valsa descompassada no pretérito indefinido
o coração dá o compasso
partido por três enfartes do miocárdio
e por incontáveis amores baldios
já deixaram encardido o pensamento das virgens cuidadosas
que inexistem nos tempos de hoje

Já tenho saudades dos comichões em réplica 
e dos sismos adjacentes deixo agora para as adolescentes
presas em suas cadeias de detalhes redundantes
cheias dessas crenças limitantes e sem importância alguma

Não me sentirei livre nunca, sou meu carcereiro

e para os que estão presos em seus preconceitos,
hecatombes, e leis absurdas no vácuo sabido
deixo o recado mais justo que se pode deixar:

"Dispam-se, diasporem-se de si e fecundem-se
engravidem-se de suas próprias vontades
essas que não teriam coragem de assumir 
para si e deslumbrem-se
desbundem-se
E enquanto morre a lógica presente na calma da satisfação
de maneira narcísica e egóica
entreguem-se, enfim tomados do contra tudo
transbordem constantes e se tornem melhores
bebendo em tuas fontes abertas sob o seu nirvana
ecoado em mantras e hinos"

Eu não tenho cura, sou meu próprio veneno

Nasci velha e cedo demais, meu tempo 
era o futuro que não prosperou 
e que nem viverei para ver
não gasto a minha fé
guardo-a com paciência
como um objeto de valor
talvez o ouro dos tolos 
que revelo como meu ventre de 50
na minha boca suja de 20

Já me decepcionei 
e desapontei muita gente, 
gente demais eu diria...

quem esperou de mim o que não sou
quem me deu a mão e me amparou 
cultivei e cativei tantos ódios íntimos 
por quem eu deveria amar
e fiz com que me odiassem severamente

hoje trago uma pele sob a minha pele
invisível para todos 
uma tatuada manualmente por mim
finamente bordada de tinta negra
essa me lembra quem sou

quem dera houvesse um modo
de compartilhar isso com alguém
mas sou orgulhosa demais 
pra tanto