quinta-feira, 27 de novembro de 2025

poema dos 50

 não espere de mim quem não sou, não abra teu leque de expectativas, pois sou livre. tentei não ser eu algumas vezes e me adaptar a quem não me queria tanto assim e não funcionou. então caso não saiba ou espere que eu mude, não vou. estou descalça, feita em joanetes e os sapatos de salto não me encantam. o batom deixei de lado aos vinte, as calcinhas aos trinta e o juízo aos quarenta. reservei aos cinquenta meu melhor vinho, minha melhor nudez e meu mais trabalhado poema e ele começa assim: "não espere nada de mim"

sábado, 8 de novembro de 2025

escravo





as peças do assoalho
estão a soltar
e já não tenho madeiras
para reparar

as telhas da casa hão de cair
enquanto bocas banguelas 
continuam a sorrir

não há nada que não esteja 
em promoção relâmpago
dobraram o preço ontem
para ser vendido amanhã,
pela metade do preço
quem tem mais não precisa de meio
quem não tem 
é pobre demais para o suficiente

algumas delas se vendem por pão
outros deles eles trocam a alma 
por carros velozes
quanto vale sua essência
quando tem fome?
quanto vale seu ego
quando tem fome?

trabalha! trabalha!
sem descansar 
que é o escravo
que vou dominar

trabalha! trabalha"
sem descansar
vende-me tua alma 
que eu quero comprar...




sexta-feira, 7 de novembro de 2025

(ar)dor




quis-te assim tão meu
por não ter amado
a dor de amar a dor
és meu, és meu
diz-me tu, como se fosse

quis-me assim tão tua
por não ter desejado
a dor de ser currado 
pelo amor

ah, tão meu
ahhh, tão meu


tomar-te ia a dor
se o id pudesse matar o ego
não pode

à dor que me arrebatou-nos
amemos a
meu amado, meu
meu amado eu
que somos ínfimos
e a dor, não.

pois








que sou dessa mesma coisa
que não descobriram 
que não sabem da existência
que jamais vão nominar

que sou  dessa mesma matéria
que não desvelaram
que não ousaram imaginar
que jamais vão tocar

que sou de uma essência
que não sentiram
que nem sabem o sabor
que jamais vão engolir

não sou líquida
airosa ou sólida
sou dum elemento estranho
que jamais vão dominar

sou mulher-poesia-palavra
presa em todos 
e livre pra ser

aquela que toma 
os sentidos
e não se revela
impune


Narciso e o Tejo



das águas que não se prendem
e suaves evaporam
vão como chegaram
apenas em si
tão densas em si
tão completas em si

água de sarjeta
água de remela
de tramela
de suco
de suor

sou feita dessa matéria
de tudo e cada átomo
que me solta e me faz
de cada senzala
de cada cela
de todas as selas
que tentaram me colocar

o cavalo doido 
que salta as porteiras
que não se deixa domesticar
e quieto no canto
só trama a próxima fuga

quem sou eu?
quem somos nesse mundo
tão pervertido
tão nômade
tão lindo

sou o brilho refletido 
nos olhos dos outros
narcísica
sem perder o contorno
do outro

sou você sendo eu
e me reconheço nesse mar
imenso mar de volver 
apenas o som das ondas
que foram para o fundo
se reviraram mar

e hoje batem se debruçam 
às margens do rio Tejo

safada






ouvi falar ontem
da maria sem vergonha
pareciam falar de mim
e não há nada
que me incomode


rio-me ao transbordar
transversa imutável, eu


ha ha ha
ho ho ho
e ainda bem


sem vergonha também
quem me quer
sem saia, sem calcinha
e sou minha


rio-me ao notar
quão tristes são
e quão feliz estou


saias justas e saltos
sobre saltos


e eu tão feia
de tão feia brilho
sou linda, eu