sexta-feira, 20 de março de 2026

passagem



eu dedico essa passagem
a quem não quer
perder a viagem
de viver perto de mim
o itinerário parece simples
pão e café cedo
ou quando eu não quiser mais
dormir
os dias não serão curtos nem longos
e terão o tempo certo
para respirar e aprender

apreender

e dia após dia
que sejamos livres
que me corrija e não inflija
eu tentarei o mesmo
garanto, não será suave
afinal a nossa nave
é terrestre e ainda não decolou

quero amar no caminho
com respeito e virtudes
e que nossas atitudes
digam a nós
quem são

a passagem é de graça
mas não é grátis
pois tudo tem um preço
que é pago com o tempo
e com o coração


sábado, 7 de março de 2026

repúdio



você que lê de tudo
e não sabe de nada
você que vem de longe
lá dos recôncavos brutais
da ignorância profunda 
não me dita sua regra
malfadada

eu quem entrei muda
e saí calada
eu quem apanhei na cara
e sem licença fui violada
por glutões e cínicos
eu quem não tenho amor
eu que nem tenho refúgio
repilo

agora, escolho essa é a estrada
dessa vez vou e não volto
eu prefiro a solidão
sem dúvida 
só quero
estar só e viva
não mal acompanhada

pouca poesia



os meus cacos estão espalhados
por todas as partes
a maior parte de meus amigos
está morta
e eu não alimento mais
esperanças vãs

tudo que amei
me levou um pedaço
de minha carne
e sanidade

sóbrio e sem reservas
a realidade come-me as unhas
carcome as roupas
mata-me de frio

vendo versos parcos
ah, o vil metal
em uma terra estranha

quanto vale um caco meu?
quando ainda poderei ter
tendo tão pouca poesia?


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

a dicotomia



sou eu em outra pele
olhando com mesmos olhos
um eu abastado e transbordado
de mim que já não sou


aves e césares declinados
em todos os tempos verbais
sem se repetirem
e ao mesmo sendo eu
ainda


esse teu corpo que não o meu
ferve e me olha com desejo
inspira-me, inspiro-me
vista em reflexo do outro


és-me sem
ser-me
sou-te sem
ser-te.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

entre mundos



porque não pertenço a mundo nenhum
e nada me resta se não chorar de saudades
de um mundo que não é meu
e está sempre pior
corro, corro

para o outro lado que não está
nada que é meu
mas quando tiver eu saio
como saio, à francesa

entre dois mundo 
o passado e o futuro
é aqui onde estou
uma vida de agora

antes que acabe

saudades



seca, é o adjetivo encrustado
mesmo tão longe do
planalto central
e entre os blocos guiados
a correr sem freios e não chore
de saudades imensas
imensas minhas,
não faça como as chuvas
na europa, sim aqui na europa
eu, eu, risos, europa, pah pah

na europa só chove, só e apenas
chove...

e que me rompa as roupas
molhadas
seca, e brasília é seca
enquanto todos lá esperam 
ansiosos
não chore, não chore
mas na minha terra antiga
não é como aqui
onde tudo se derrama
lenta e friamente
no meu planalto
não chove, não chove não

sábado, 14 de fevereiro de 2026

de mães, dos mares aos bares de Alfama



abre-me seus os braços
para os filhos e não filhos
antigos e recém chegados
os obedientes e degredados
abre-me os braços, Portugal

aqui, onde tantos se embriagam e naufragam
são e somos os tardios os filhos
dos mares e dos bares
de Alfama, do fado
e de Lisboa

que o trago, a dose também acolhe
a bebida é mãe de muitos
e abarca uma legião
há quem vá e volte por ela
ou por um par de pernas
ou pela terra que deixou 
por pão

um brinde ao porre, à alegria...

a língua e ascendência não importam
estão todos à porta 
à espera de um ou vários abraços quentes
numa dose ou numa garrafa
numa mão morna e aveludada

não importa quem 
se fala verdade ou mente
há sempre uma cadeira
um colo
uma canção